Domingo, 5 de Julho de 2009

You Are Welcome to Elsinore - Mário Cesariny

Para a miúda, que escreve excepcionalmente bem e em cujas palavras vou encontrando sentires irmãos, paridos em silêncios que ardem como brasas quentes, levedados com um mesmo fermento chamado paixão.

       YOU ARE WELCOME TO ELSINORE
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte     violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas     portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida     há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar       

               

 

 

publicado por Ventania às 17:39
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Sábado, 4 de Julho de 2009

Mário Cesariny

PARADA


Com um grande termómetro no chapéu

e um certo ar marcial equidistante

todos saíram hoje das suas casas na duna

para a rua a soprar o vento que vem de longe

a certeza que há-de vir de longe


Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros

nas montras nos passeios por baixo dos bancos

passam os pontos escuros para o outro lado

sem esquecer o espelho

sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino

para fazer a surpresa

sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte

da cor do sol

o pescoço da nossa felicidade


Mário Cesarinyin ‘burlescas, teóricas e sentimentais’, p. 124, colecção forma nº 7, Editorial Presença, Lisboa, 1972 (Antologia, tendo origem o poema na obra ‘Pena Capital‘, 1957).

 

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido 
um copo uma pedra uma pedra
configurada um avião que sobe levando-te nos seus braços 
que atravessam agora o último glaciar da terra [...]

Mário Cesariny, Autografia, Assírio & Alvim

 

publicado por Ventania às 05:05
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

sobre mim

pesquisar

 

Julho 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
17
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

posts recentes

You Are Welcome to Elsino...

Mário Cesariny

arquivos

tags

todas as tags

crème de la crème

Breve história dum abraço...

...

balanço

Adrift

Silêncio

Procuro

Como quem rasga poemas...

um momento

evasões?

Auto-retrato

links

comentários recentes

espelhos de bolso.pequeninos, deprimem-nos- fazem-...
muito bonito , muito tocantegostei bastante !PARAB...
É muito útil para me.I foi muito feliz em encontra...
Nice informações apresentadas no post, obrigado p...
Boa noite!Sou o proprietário de uma obra inédita d...
Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou ...
Já regressei, minha querida. Aliás, nunca fui long...
Só hoje vi o fim do teu blog... Sinceramente, lá d...
Não. não és só tu a perder calçado!Neste momento e...
Os filmes indianos têm aquele problemas.... há mus...

subscrever feeds