Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Out of reach

Esse sinal de interdição é para manter as distâncias? É para sublinhar quão inalcançável és (ou pretendes ser)?

Que sabes tu de mim ou da minha vida? Perdes tempo… Perdes-te em suposições, focas e desfocas as lentes das proximidades consoante o que queres retirar, sempre; nunca consoante o que queiras dar, porque não dás nada, só poeira. Não te iludas, eu não sou manipulável como os restantes. Quando chegas, já sei o que trazes nos bolsos. Não te fica bem dissimular, fingir que não trazes nada. Nem sequer tens muito jeito para disfarçar. Pensas que tens as respostas, contudo ostentas as perguntas, como que a fazer um teste de 9º ano. Não gosto de testes nem de jogos. Não me apetece dar ao trabalho de perceber o teu. Diz o que queres, se é que queres. Se não, desampara(-me, -nos) a loja. Os súbitos interesses, pausados em compassos ansiosos por revelações que não o são. Não gosto dessas artimanhas, gosto que as pessoas sejam directas e façam as perguntas que têm de forma objectiva.

Suspeito que de mim não queiras mais do que apaziguar a ordem do pódio. Relaxa, nunca gostei de medalhas, muito menos de protagonismos. Tenho aqui tudo o que preciso. Dispenso alimentar-me de bajulações a identidades imaginárias. O que tenho, é meu. Tenho-o guardado no peito, não preciso expor na vitrina para que todos vejam como é grande e belo e cheio de sacrifícios. O que tenho, pouco ou nada, é meu por inteiro, só meu, é verdadeiro e não sucumbe aos frívolos atentados. Não digo que me queiras mal. Só digo que já não acredito numa só versão da mesma estória. Ainda te quero bem. Mesmo conhecendo mais de ti e percebendo esses ardis.

A necessidade de atenção pode ser doentia. Compra muitos espelhos, ver-te-ás sempre no centro duma roda de gente fascinada por ti. Mas não me verás a mim, que eu, já te vi.

 

publicado por Ventania às 04:51
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Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

take 1

Ao longe, vozes que falavam umas com as outras, numa língua que não era a sua. Tinha receio de abrir os olhos. Não tinha a certeza se havia sido sonho, imaginação ou puro desejo. Ousou ensaiar uma espreguiçadela, sentiu os braços dele a envolvê-la. Os pés fizeram-lhe uma festa, as pernas engalfinhadas sorriam. Ele apertou-a e deu-lhe um beijo pequenino, muito rápido, na face. Ela abriu os olhos e inquiriu, sem dizer nada. Ele também não sabia responder melhor. Era assim, ali estavam, isolados, juntos e cheios de hesitantes hipóteses. Esgueirou-se depressa, pés no chão e soltou um nervoso assobio bem-disposto. Ela gostou. Sentiu-se cheia de confiança, pareceu-lhe que a vida acabara de começar, e da melhor maneira. Ensinou-o a dar-lhe os bons dias, com um beijo de confirmação. Tudo era perfeito, o cheiro de sabonete na pele, a música, a distância dos passados que já não importavam. Não tinha sido um engano, sequer a embriaguez duma nova realidade com paredes pintadas a lápis-de-cor. O sentimento, recente sem ser imprevisto, instalara-se como um estandarte.

A vida acabara de começar. 

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publicado por Ventania às 22:15
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Terça-feira, 7 de Julho de 2009

07-07

tinha dito que o 7 é o meu número e as coisas mais importantes calham sempre a acontecer nestes dias. Continuo a gostar do 29. 9-2=7. Ou 2-9=-7. Antíteses.

Fez um ano. Tudo mudou, várias vezes. E desse dia por 7 anos? Onde estaremos, quão diferentes?

Muito mais que um seis no totoloto (já dizia o Sérgio Godinho, com um brilhozinho nos olhos), é um 7 no euromilhões (5 + 2 estrelas). Qual será a probabilidade de me sair essa grande sorte, não a do jogo, a outra? (Pouco) maior que nula, é certo.

 

 

sinto-me: com azar no jogo e no amor
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publicado por Ventania às 20:12
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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

...

Quem me conhece um pouquinho já terá percebido que não sou poupada nas palavras. Tenho a feliz coincidência de viver com os pensamentos soltos entre o cérebro e a laringe. Sem rédeas nem cintos nem travões, escorregam massa cinzenta abaixo. Se calha serem em número, arrepiam caminho mesmo que não tenha vontade de soltá-los. (Deve ser por causa da gestão de tráfego, quando há engarrafamento os sacanas desviam caminho pelo atalho mais próximo.) Isto significa que mesmo quando durmo, a boca abre-se e as palavras, os risos e suspiros, todos vão escorrendo sonos e sonhos fora.

Não padeço de grandes males que afectem o discurso, nem tenho já a grande timidez verbal que durou até ao fim da adolescência. Talvez porque o mundo se tenha tornado maior e mais ruidoso, algures pelo caminho devo ter percebido que, se não fizer escutar a minha voz, ninguém a poderá detectar por magia, telepatia, ecos no silêncio, ou o que lhe quiser chamar. E tenho conhecimento de mim própria o bastante para saber que, se explorar bem as palavras, mais as escritas que as faladas, sei ser suave e diplomata, sei ser assertiva e ríspida, sei ser poética quando os humores colaboram, sei ser concisa e restringir-me a linguagem límpida e técnica. Infelizmente, para mim e para os que me rodeiam, a impulsividade cresceu-me tão à flor da pele quanto a verbalidade. Isto traduz-se em reacções a quente, muitas vezes desproporcionadas e, concedo, exageradas. Se a situação me traz os sangues à ebulição, aumenta o ritmo cardíaco, vasoconstrição, os pensamentos são mais ágeis no sprint, sinapse acima, sinapse abaixo, o espaço mais e mais apertado e “sem estômago” para os fermentar, são disparados à velocidade da luz. Chegam a atropelar-se, atabalhoados na língua, que não consegue ser tão lesta. E assim, seja onde for, não há vultos que intimidem, venha quem vier, a (minha) verdade sai em socorro dos “pobres, oprimidos e injustiçados”. Manifesta-se amiúde também o advogado do Diabo, sempre disposto a defender o indefensável, com os mesmos pesos e as mesmas medidas.

Tudo isto para constatar e advertir, advertindo a constatação, que por mais que saiba que devia ter tento na língua, pensar bem e limar arestas antes de libertar discursos com os punhos a bater no ar ou nas mesas, não o consigo ter. Ou talvez não tenha grande interesse nisso e me permita esta indulgência com até algum prazer. Acérrima defensora da Verdade, sempre, para todos, creio que o seu potencial de deferir golpes tem a benesse de não ser passível de repetição. Ao passo que as mentiras e meias verdades se somam, se multiplicam, se prolongam, se obscurecem cumulativamente, a Verdade quando é encontrada não tem marcha à ré. Dói, ou pode doer, como um punhal enterrado por entre vísceras e costelas. E pode infectar, dar febres difíceis de curar. Mas cria-se uma imunidade. Outras verdades podem doer, outros males podem estilhaçar. Mas aquela verdade descoberta, nua, encandeia no momento, mas aos poucos aprende-se a viver com ela, a Ver. E jamais tornará a doer.

publicado por Ventania às 23:25
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Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Sinastria amorosa de Ventania

Como Ventania ama? Ao nascer, Ventania tinha o planeta Vénus no signo de Escorpião. Sabe aquela frase que diz que o amor tem que ser "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?". Pois é, deve ter sido inspirado em alguém de Vénus em Escorpião. Uma pessoa com este posicionamento de Vénus ficará ao seu lado haja o que houver, sendo fiel e dedicada a você em todas as crises, saindo de sua vida apenas se você expulsá-la.

CONFIRMA-SE

 

Vantagem: Ventania é do tipo de pessoa com quem você pode contar para qualquer coisa. Quando ama, sua fidelidade é total e incondicional

CONFIRMA-SE. E ESPERO O MESMO DO OUTRO LADO.

 

Desvantagem: ciúme, possessividade e uma fantasia estranha de que quando suas pessoas se amam têm que estar "fundidas" tende a ser o pior lado de Vénus em Escorpião.

CONFIRMA-SE… MAS ESTAVA CAPAZ DE APOSTAR QUE SE HOUVER PRÓXIMA VEZ, VOU MELHORAR.

 

Como lidar: não faça nada que provoque seu ciúme. Nem por brincadeira!

CONFIRMA-SE. AS RETALIAÇÕES SÃO TERRÍVEIS.

 

Possíveis presentes ideais: livros e DVDs de mistério, dramas ou terror, roupas (pretas), lingerie sensual, diário com chave, cofre, uma noite num motel incrível, sua alma entregue em contrato assinado e com firma reconhecida.

NÃO É TOTALMENTE FALSO, MAS TENHO SUGESTÕES MELHORES. GOSTO DE RECEBER (E DAR) PRESENTES QUE NÃO SE EMBRULHAM. QUEREM MESMO VER-ME FELIZ, É COM UMA PASSEATA, ENTRADAS EM ESPECTÁCULOS, JANTARADAS, EXPERIÊNCIAS DIFERENTES. LIVROS, SEMPRE, E CONFIRMA-SE A PREDILEÇÃO POR MISTÉRIOS, DRAMAS E TERROR. ROUPAS PRETAS IDEM E LINGERIE TAMBÉM DE PREFERÊNCIA PRETA. ONDE SE LÊ DIÁRIO COM CHAVE E COFRE DEVERIA LER-SE CADERNOS E BLOCOS DE NOTAS, LAPISEIRAS E CANETAS DE TINTA PERMANENTE (já se sabe que as esferográficas têm aquele problema).

 

O pior que você poderia fazer: trair a confiança de Ventania. Faça isso, e dê adeus ao seu amor. E certifique-se de estar bem longe quando Ventania descobrir a mentira ou a traição...

CONFIRMA-SE. DAR O DITO POR NÃO DITO, FALTAR AO PROMETIDO, TIRAM-ME DO SÉRIO. MAS MENTIR SIGNIFICA UMA TOTAL E IRREVERSÍVEL PERDA DE CONFIANÇA.

publicado por Ventania às 01:38
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

I mean it

When no means no;

When forever means forever;

When never again means never again.


Right here, beneath all of the growing pains, nobody hides, nobody is undercover. 


Some call it bad temper. I call it Truth.

publicado por Ventania às 12:57
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Terça-feira, 16 de Junho de 2009

A romã

Foi tua, foi minha, doce, aos pequenos gomos que se derretem nos sabores das línguas. Canivete, carroças, calor. Ácido, cheira a quarenta graus e a espiritualidade. Flores de lótus. Lado a lado, sem palavras, obtusas, desnecessárias. Partilha. Fertilidade, ternura, aventura. Começos, intervalos, reticências nos esquecimentos. Pausa em tudo o que nos acostumámos a ser. Sexo(s). Franja suada, colada à testa, ventoinhas cantoras testemunhas, duches de paz e de beijos. O reverso. Romã é Amor ao contrário.

Maluda

Devia ter comido só figos.

publicado por Ventania às 19:59
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Domingo, 14 de Junho de 2009

esferográficas

Tenho um problema. Vários, na realidade. Mas vamos por partes.

Não sou grande coleccionadora. Sou mais uma acumuladora, de coisas particulares de que goste ou tenham algum interesse. Importa frisar que são poucos, muito poucos, os itens materiais que me suscitem este interesse. Algures umas notas de vinte escudos, algumas moedas, uns poucos de selos. Não lhes presto atenção, não os exibo, sequer os mantenho devidamente acondicionados. Daí que jamais me poderia considerar coleccionadora do que quer que fosse. Sempre nutri um fascínio grande, porém, por todo o tipo de artigos de escrita e desenho, tenho uma paixão assumida por papel, na sua virgindade múltipla de possibilidades, a promessa de poder conter o mundo, um retrato de alguém querido, um poema, anotações atentas floridas de termos científicos. Blocos, cadernos, quase como embriões de livros. Telas, pincéis, bisnagas de tintas, encerrando misteriosos devaneios pouco estudados e sempre improvisados. Lápis, sobretudo os de grafite escura e macia, mares de sombras, gradientes, vidas ondulantes a duas dimensões. Pelo que, não no sentido do coleccionismo do objecto, pristino e intacto na sua embalagem original, acolhido por pequenas vitrines ou álbuns, mas antes pela adoração do potencial que encerra e pelo gosto de manusear e tentar canalizar as energias que me povoam para a criação de alguma coisa, detenho um número considerável de, resumamos, lápis e esferográficas.

Os lápis são amigos fiéis, inutilizados apenas se quebrados ou finda a sua vida. Já as esferográficas, do alto da sua engenhosa mecânica, são manhosas. Ora podem rebentar nas mãos, ora cessam o seu fluxo, ora secam, ora nos deixam mal quando estávamos a contar com o seu desempenho inequívoco, a meio duma assinatura, um postal de aniversário, uma ideia fantástica… Deixam marcas mais profundas, são definitivas como as palavras ditas, que não podem voltar para trás. Nem corrector, nem borracha, nada faz recuperar a candura perdida do papel em branco, depois de ter sido profanado por uma esferográfica. São complicadas. Pouco versáteis. Têm tampas, ou molas, ou outras complicações acessórias. Em constante desafio, a provocar, a pedir que lhes pegue e as faça exsudar um rasto da sua essência.

E o que fazer com as esferográficas que se recusam a escrever? Este é o meu problema. Jazem ali umas quantas dezenas. Já tentei todos os métodos que o instinto dita; roçá-las com energia, enfurecendo-as, enfurecida, insistindo; Aguardando pacientemente que inclinadas mais para lá ou para cá a tinta se voluntarie para descer e escorregar por onde deve, por onde tem de ser, que não foi feita para outra coisa. As esferográficas foram feitas para escrever, ou para desenhar. Foram feitas para mim e para funcionarem sem sobressaltos. E eu gosto realmente delas, das grandes, das pequenas, pretas, azuis ou vermelhas. Sem preconceitos. A tal paixão pelos pequenos universos que concentram. Mas elas falham-me. E deixam assim de me ter utilidade, que belas nem tanto assim, não me consolam a estética. Para além de existirem mundo fora milhões de esferográficas, novas pelo menos para mim, perfeitamente funcionais e possivelmente mais afinadas, com melhor tom, correctas e respeitadoras. Prontas a cair nas minhas mãos e a permitir que faça delas instrumento, batuta, pauta. Pulsantes de vigor e ansiosas por dançar e rodopiar entre papéis frenéticos ou melancólicos. Mas estas, as que não tenho como minhas, não estão impedidas de entrar e me acharem. Pode acontecer não ter já espaço para elas, por estar ocupado com as outras, as casmurras, cheias de tinta que não querem dar. E sendo assim não procurarei novas esferográficas, seria uma busca condenada à partida. Que dilema! Valerá esperar que as canetas disfuncionais um dia se reinventem, curadas, que lhes agrade mais o tempo ou o espaço, a superfície ou o abstracto, e tornem a escrever? As palavras que dirão poderiam ser substituídas pelas palavras de outras, frescas, portentosas, imaturas? Que hoje estão mancas, não me servem de nada, estendem-se ao longo da sua complacente inércia a ocupar o meu espaço, o meu precioso e selectivo espaço. Mas por elas tenho a estima própria de quem se afeiçoa a uma presença e só aprende o quanto no dia em que aquela passa a ausência.

A isto se resume uma das minhas mais pertinentes questões do momento: devo deitar fora as esferográficas que não escrevem e libertar espaços nas gavetas, ou manter a fidelidade aos arrebatamentos e guardá-las, tentando talvez mais tarde o seu regresso?

 

 

Ah, e é claro, quem diz ‘esferográficas’ diz ‘pessoas’…

 

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Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Um baú mal fechado

De quem é a cara abatida, de olhos mortiços, que me devolve o espelho?

Porque rebentou aquela lágrima calada, que se perpetua na face e na alma? Será o degelo do coração? Escorrem-me as memórias a cada som, cada cor... E invejo a tua amnésia selectiva.

Sofremos, por opção. E choramos, e berramos, contra ventos e mares e paredes, esperneamos e reivindicamos o que é nosso por direito, assim o cremos. Acalentamos a dor com achas de memórias do futuro e culpas do passado.


P.S. Este blogue não é um diário

publicado por Ventania às 23:50
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Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

À janela, no Chiado

Não me esqueceu da data: 20 de Março. Foi quando batalhava contra a verdade e a memória; tentava esquecer-me que ele existiu e que a sua existência arrombou os cadeados da minha. Tentei esquecer todas as coisas que me ensinou e os sentimentos que me apanharam na curva e me acagaçaram de morte. Apaguei as fotografias, proibi-me (e, com a força das expressões de dor que devia transpirar na altura, a todos quantos adivinharam a estória) de pronunciar o seu nome, de sequer falar dos sítios em que a realidade se tinha tornado um lugar melhor. Queria fingir que as lembranças dos sabores da pele e da língua dele eram de outro, ou dum qualquer. Quanto mais me forçava a ignorar a sua presença, mais a sua ausência ecoava em cada movimento dos ponteiros. Tentei substituir a sua imagem na minha cabeça mas a cada pestanejo ele me surgia de sorriso aberto até ao canto dos olhos; o mesmo sorriso que me virou as tripas e a lógica e o coração do avesso; os mesmos olhos que, cerrados, me fitavam na noite, desde a primeira, em que me soube rendida àqueles contornos de amêndoas tristes, quebrando todos os silêncios. Tentava, com todas as minhas forças, bani-lo de mim. E chorava, no escuro (eu, que nunca chorava!), com a falta dele a meu lado na cama, com o abismo da diferença entre o que era e o que tinha sido. Chorei também acompanhada, azul de vergonha, em frente a todos e sem controlo. Havia sido apanhada em falso, do nada, quando alguém me perguntou (antevendo a resposta por tão bem conhecer os meandros de mim) se sentia saudades dele. Aquelas duas palavras, o nome dele e “saudades”, como duas pequenas gotas que obrigaram os meus mares a transbordar, a derrubar os diques que tanto havia engenhado para não quebrarem.

Foi num desses dias, de pensamentos acorrentados e palavras abafadas, que tudo desabou. Cheguei, à hora habitual, no lugar habitual - uma das poucas rotinas com que vou convivendo pacificamente. Quando me aproximei para sentar, os joelhos, juro, tremeram. Não queria acreditar. Ali, no “meu” canto, alguém escrevera o seu nome, em maiúsculas como que a berrar-me que não podia fingir que não estavam ali. Porquê o seu nome, que foge a sete pés da oblíqua escuridão em que todos os Pedros e Paulos e Josés e Antónios se atropelam aos tropeções?! Aquele nome que, quanto mais virava costas, mais a cidade gritava aos meus olhos, dedos e ouvidos. Estava por toda a parte, a multiplicar-se como quando se compra um carro novo e os seus gémeos repentinamente erguem o pescoço entre as congestionadas multidões. Assim era o nome dele, repetido, esgotado, fantasmagoricamente assolando cada dia e cada noite, cada livro, cada café, por toda a urbe e até naquele chiado ondulante… Que ausência de ordem é esta neste universo, que faz questão de mo impor, quando só lhe quero fugir? Quando, no fundo, só quero aninhar-me nos seus braços e fazê-lo meu. Sentei-me sem saber como não quebrar, hipnotizada na realidade que fugia. Foi nesse momento exacto, em que o seu nome surgiu tatuado no meu seat by the window, que baixei as defesas, abri mão da carapaça e voltei a casa, ao lugar que é só meu. Onde me encontro comigo, e com ele, que faz inevitavelmente parte de mim. Retornei a mim, ciente que estou por minha conta, mas liberta de medos e máscaras, liberta da negação do que foi e que continua a ser. Não foi fácil, não foi uma cedência. Foi antes o culminar duma árdua luta que não queria ganhar. Foi mais do que baixar os braços, foi aceitar uma verdade que queima o peito como ferros em brasa. Foi saber que o íngreme caminho que é o meu (que não escolhi e que não tenho poder para recusar) não tem atalhos e que terei de percorrê-lo descalça. Sob sol, chuva, neve e granizo e sem garantias de algum dia chegar ao cume da gigante montanha.

Tal como aquela tinta azul, de esferográfica que mais parece permanente, que não cede, não desgasta, assim em mim permanece a companhia que deixei de evitar, o sentimento que deixei de negar. Já não fujo ao seu encontro nem ao seu nome. Já não fujo à vontade de cuidar dele e protegê-lo, de encaixar-me no seu corpo doce, de rir-lhe músicas feitas de amor. Enquanto assim for, nada tenho a lamentar. Não recusando que esta verdade venha a mudar, mas também não silenciando a força que tem o seu pulsar.

publicado por Ventania às 07:04
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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Post Scriptum para F.

21-02-2009

 

"(...)

 

P.S. Independentemente de teres tido um comportamento absolutamente idiota desde o dia em que acabaste comigo, quero que saibas que não te guardo qualquer rancor. Nem sequer por todas as mentiras. Já não és importante o suficiente para não te perdoar. Desejo-te muito sinceramente que encontres a felicidade, que chegues a ser uma pessoa plena e de bem com a vida. Eu estou bem, fiquei mal na altura, como deves calcular, mas superei as dores e até percebi rapidamente que as coisas entre nós nunca poderiam resultar sem que alguém ficasse aquém dos seus objectivos na vida. Somos demasiado diferentes em demasiados aspectos. Tiveste uma lucidez maior que a minha, ou talvez a minha teimosia tivesse sido maior. Percebi que o enorme sentimento que tive por ti talvez não tivesse sido por TI, mas pela situação gerada. Talvez me tenha apaixonado pelas hipóteses, pela paixão que tiveste por mim, pelos muitos inegáveis fantásticos momentos que vivemos. É difícil definir sentimentos e chamar nomes às coisas. Se o tempo tivesse parado, provavelmente continuaria a chamar-lhe amor. Não sei… Mas quero que tenhas presente que nunca tive noção da diferença enquanto estive contigo; cada beijo, cada palavra, foi tudo verdadeiro e sentido, de coração puro. Fui tua, só tua, do primeiro ao último dia dos quase 5 anos que partilhámos.

A percepção da diferença veio depois, inesperadamente. A magnitude dos sentimentos (ainda que também a estes não os consiga definir) abateu-se sobre mim, acho que também sabes com quem. E não sem uma generosa dose de espanto, de incredulidade. Só prova que afinal conhecias-me profundamente. Independentemente do que possas ter pensado, foram sucessões de acasos que em ocasião alguma visaram atingir-te ou magoar-te, nada foi planeado ou sequer previsível. Foste tu que de repente me excluíste da tua vida, não deveria existir lugar a mágoas, certo? Se porventura ficaste magoado, só posso dizer que lamento. E sim, tinhas razão, ele é perfeito para mim. Fizemos uma viagem onde podia caber uma vida inteira, uma vida passada, em que tudo mudou para sempre. Em que eu mudei, cresci, aprendi tanto. Hoje sou uma pessoa tão diferente de quem conheceste… Tão mais consciente. E tão mais EU.

 

Espero que estejas bem e que saibas que, apesar dos pesares, se alguma vez precisares de mim para o que quer que seja, não te vou negar a amizade, a que dizias querer manter mas cuja hipótese te apavorou. (Sim, já sei que vais negar. Eu também te conheço bem.) Não condeno; É difícil gerir sentimentos, sobretudo quando se age contra a sua natureza.

 

Ia escrever-te uma mensagem sucinta e que acabou por ser uma declaração de (bons) sentimentos. Algumas coisas nunca mudam. :)

 

Fica bem. Um abraço,"

 

ipsis verbis... Feliz Aniversário!

 

sinto-me: em paz
publicado por Ventania às 05:32
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Gone fishing

 

I knew I was going to get severely hurt. Still, it was worth it. No regrets, ever.

sinto-me: on a hook
publicado por Ventania às 05:55
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

F.A.

Fustigados por desamores e espinhos q.b., ele era receios sem fim, ela destemida de asas abertas. Renderam-se ambos, deram-se as mãos, decisões, trocaram corações. Ela vontade de ir, ele ansiedade de chegar. Ele águas e ondas, ela ventos e montes. Gostaram-se. Do outro e mais de cada um nos reflexos do outro. Descobertas, reticências, ternuras e cedências. Laços dum, amarras doutro.

Um de estar, outro de vagabundear. Um de nuvens, outro de mar. Um de efémero, outro de brutal. Um de neve, outro de areal. Um de fiel, outro de planar. Um de leis, outro das quebrar.

Ela insistia que o sonho cheirava a flores e ervas, ele sem forças para correr nos bosques. Ele de braços abertos, ela de punhos cerrados. Ela de olhos postos, ele de pés fincados.

Ela do norte, ele do sul. Se ela chorava, ele a abraçava. Se ela beijava, ele a desejava. Se ele esmorecia, ela o elevava.

Um a puxar, o outro a deixar estar. Ele a dormir, ela a sonhar. Ele a sorrir, ela a cantar. Equilibravam-se num ponto médio, longe do centro gravítico do ser. Ele mentia, ela sabia. Ela fugia, ele permitia.

Ele desertou. Ela libertou.

Não se pode voar quando as asas estão acorrentadas. É dia de celebrar a liberdade.

 

publicado por Ventania às 14:38
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Domingo, 26 de Abril de 2009

as eternidades já se acabaram

Estórias, muitas, por essas faces mais ou menos anónimas fora. Mas as nossas são mais reais, doeram mais, porque a pele e o sangue derramado no chão e por entre os livros eram nossos, do nosso vermelho-paixão. A profundidade de cada soluço capaz de despegar qualquer vislumbre de alegria do peito. Do avesso. Olhamos para ontem e nada ficou no sítio, a realidade trocou lugar com um universo paralelo em que as eternidades já se acabaram.

 

…e só então estremecem as certezas que tinha.

 

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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Breve história dum abraço à beira-chuva

Desejo-te perto e vens buscar-me, levas-me de urgência escadas abaixo para contemplar o rio à beira-chuva. Descalços, ambos, por relvas e troncos e pardais. Sensualidade molhada de seios e umbigo, arrepios, do frio e da proximidade da tua pele. Não sorris, sequer vocalizas o que quer que seja. Os teus dois olhos escurecidos, carregados de verdade. Pegas-me nos pulsos e olhas-me de frente como se me fosses anunciar um fim de mundo. Sério, grave. Os lábios entreabrem-se como que a desenhar palavras no ar, como que a tomar coragem. Toda eu um ponto de interrogação, exclamação, reticências… O cabelo molhado, sem ordem, a enganar. Um fingido cansaço desarma e a respiração acelera. Pingos grossos acariciam a cara, lambem os ombros, deslizam matreiros pelas costas. A névoa que sempre separa os meus olhos dos teus dissipa-se num bafo. Procuro ler-te, ansiosa por pular para dentro dum sonho. Murmuras: “E se disser que gosto de ti?” Conheço bem esta espiral, que sempre impões diante de mim, sem portas nem refúgios, apenas o infinito, aberto, à espera de ser colhido. “Quando o pensamento de mim te siga a todas as horas, quando souberes que a vontade é maior do que só a de ter o casulo do ego acarinhado; Quando reconheceres muito mais que uma doce empatia. Quando sob pálpebras cerradas o coração chamar o meu nome. Só nesse dia voltarás a ter-me tua.”

Solto uma mão e com um polegar afago a tua face desmascarada. Apertas-me contra o peito, não te importas de confessar uma lágrima, espessa, outra. Carinho, dor, amor, identidade. Estes que somos.

Por te amar, mudei. E decidi tornar a amar só quando esse dia chegar. Naquele abraço permanecemos, sem tempo, enquanto a chuva molhar.

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Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Eu quero!

Fotografia de José Marques  

publicado por Ventania às 04:09
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Sábado, 11 de Abril de 2009

...

Eu sei que dói... Não posso dizer que sei como sofres, não sei. Só sei como eu sofro. E dói. Não queria que tivesse acontecido assim, a minha mágoa réplica da tua, o meu vazio eco do teu. Torna tudo mais difícil. Não podemos reescrever o que já foi. Mas podemos encarar os dias que se seguem com sorrisos e confianças. Sabes que as forças não me faltam, descubro sempre um recanto onde as encontro luminosas. É uma luz que está cá dentro, que procura a tua, que a acha mesmo se a escondes. Aperta a minha mão, não te vou largar...

sinto-me: iluminada
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