Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Horto de incêndio - Al Berto

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher 
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo 
de crateras extintas – vai por essa porta 
de água tão vasta quanto a noite


deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me


que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite


não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

 

publicado por Ventania às 11:34
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Que trabalho - Eugénio de Andrade

Que trabalho exasperado, o da língua,
essa em que dizes com mão insegura
desvios, desacertos, desalinhos.
 

publicado por Ventania às 05:56
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Domingo, 5 de Julho de 2009

You Are Welcome to Elsinore - Mário Cesariny

Para a miúda, que escreve excepcionalmente bem e em cujas palavras vou encontrando sentires irmãos, paridos em silêncios que ardem como brasas quentes, levedados com um mesmo fermento chamado paixão.

       YOU ARE WELCOME TO ELSINORE
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte     violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas     portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida     há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar       

               

 

 

publicado por Ventania às 17:39
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Sábado, 4 de Julho de 2009

Mário Cesariny

PARADA


Com um grande termómetro no chapéu

e um certo ar marcial equidistante

todos saíram hoje das suas casas na duna

para a rua a soprar o vento que vem de longe

a certeza que há-de vir de longe


Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros

nas montras nos passeios por baixo dos bancos

passam os pontos escuros para o outro lado

sem esquecer o espelho

sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino

para fazer a surpresa

sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte

da cor do sol

o pescoço da nossa felicidade


Mário Cesarinyin ‘burlescas, teóricas e sentimentais’, p. 124, colecção forma nº 7, Editorial Presença, Lisboa, 1972 (Antologia, tendo origem o poema na obra ‘Pena Capital‘, 1957).

 

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido 
um copo uma pedra uma pedra
configurada um avião que sobe levando-te nos seus braços 
que atravessam agora o último glaciar da terra [...]

Mário Cesariny, Autografia, Assírio & Alvim

 

publicado por Ventania às 05:05
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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

no teu poema - José Luís Tinoco / Carlos do Carmo

 

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.

 

sinto-me: para o poeta
publicado por Ventania às 05:59
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

O AMOR QUANDO SE REVELA - Fernando Pessoa

O amor, quando se revela, 
Não se sabe revelar. 
Sabe bem olhar p'ra ela, 
Mas não lhe sabe falar. 

Quem quer dizer o que sente 
Não sabe o que há de dizer. 
Fala: parece que mente 
Cala: parece esquecer 

Ah, mas se ela adivinhasse, 
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse 
Pr'a saber que a estão a amar! 

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente 
Fica sem alma nem fala, 
Fica só, inteiramente! 

Mas se isto puder contar-lhe 
O que não lhe ouso contar, 
Já não terei que falar-lhe 
Porque lhe estou a falar...

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publicado por Ventania às 19:45
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Sábado, 16 de Maio de 2009

Todas as Ruas do Amor - Flor-de-Lis


 

 

 

Se sou tinta Tu és tela

Se sou chuva És aguarela
Se sou sal És branca areia
Se sou mar És maré-cheia
Se sou céu És nuvem nele
Se sou estrela És de encantar
Se sou noite És luz para ela
Se sou dia És o luar
Sou a voz Do coração
Numa carta Aberta ao mundo
Sou o espelho D’emoção
Do teu olhar Profundo
Sou um todo Num instante
Corpo dado Em jeito amante
Sou o tempo Que não passa
Quando a saudade Me abraça
Beija o mar O vento e a lua
Sou um sol Em neve nua
Em todas as ruas Do amor
Serás meu E eu serei tua
Se sou tinta Tu és tela
Se sou chuva És aguarela
Se sou sal És branca areia
Se sou mar És maré cheia
Se sou céu És nuvem nele
Se sou estrela És de encantar
Se sou noite És luz para ela
Se sou dia És o luar
Beija o mar O vento e a lua
Sou um sol Em neve nua

Em todas as ruas Do amor
Serás meu E eu serei tua

publicado por Ventania às 05:05
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Para Ti - Mia Couto

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

publicado por Ventania às 16:23
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Sexta-feira, 13 de Março de 2009

O Sorriso - Eugénio de Andrade

 

 

Creio que foi o sorriso, 

o sorriso foi quem abriu a porta. 
Era um sorriso com muita luz 
lá dentro, apetecia 
entrar nele, tirar a roupa, ficar 
nu dentro daquele sorriso. 
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
                 

 

 

I miss your smile...
I miss your light...

             I miss you...

 

 

sinto-me: wishing for
publicado por Ventania às 07:07
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Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Águas de Março - Tom Jobim e Elis Regina

 

 

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

 

publicado por Ventania às 23:33
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Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Pablo Neruda

 

Tu eras também uma pequena folha

que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

sinto-me: escreve-me um poema!
publicado por Ventania às 19:05
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Cristalizações - Eugénio de Andrade

1. 

Com palavras amo. 

2. 
Inclina-te como a rosa 
só quando o vento passe. 

3. 
Despe-te 
como o orvalho 
na concha da manhã. 

4. 
Ama 
como o rio sobe os últimos degraus 
ao encontro do seu leito. 

5. 
Como podemos florir 
ao peso de tanta luz? 

6. 
Estou de passagem: ama o efémero. 

7.
Onde espero morrer 
será amanhã ainda? 

publicado por Ventania às 17:29
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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Soneto de Fidelidade - Vinicius de Moraes

 


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

 

Hoje, poderia ser tua para sempre.

sinto-me: on hold
publicado por Ventania às 20:20
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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Oxalá que chova


Oxalá que chova

 

Para matar a sede 

 

Oxalá que chova 

 

Para acalmar os suores 

 

Oxalá que chova 

 

Para calar o grito 

 

Que teima em marcar o ritmo 

 

Dos pensamentos que se estrangulam 

 

Por sair da ponta deste lápis

 

Oxalá que amanhã

 

O dia me leve a outro lugar

publicado por Ventania às 04:18
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Domingo, 21 de Dezembro de 2008

Fundo do Baú II

 Foste

eco das vontades amargas

porta de luz sem calma

palavra amiga, ansiosa, ansiada

rede que pesca às escuras

tiro certeiro que ecoa no peito

coragem de ousar dizer talvez

euforia na ausência, que queima

poesia de dois gumes como facas errantes

presença mágica de obra diurna

faísca melosa a querer beijar

sonho de hoje, de antes e sempre


És

promessa de vida, de luz, de ti

conto de fadas enrolado no tempo

momento que foge e que marca a saudade

memórias fechadas na palma da mão

sorrisos imaginados, embrulhados nos meus

poção de ternura que não embriaga

areia na concha da mão que te dei

vento presente que embala a distância


Serás

suspiro pelos beijos que nunca morrem

alvorada recorrente no fundo da alma


SEMPRE, Amor

sinto-me: like cleaning up that chest!
publicado por Ventania às 22:14
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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Fundo do Baú I

Ficar um dia inteiro sem te ver

Ouvir nos recantos das memórias

O açúcar dos céus ocos sem reflexo de ti

publicado por Ventania às 19:49
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Domingo, 14 de Dezembro de 2008

...

 

sinto-me: a encher os pulmões de 'força'
publicado por Ventania às 12:29
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