Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

À janela, no Chiado

Não me esqueceu da data: 20 de Março. Foi quando batalhava contra a verdade e a memória; tentava esquecer-me que ele existiu e que a sua existência arrombou os cadeados da minha. Tentei esquecer todas as coisas que me ensinou e os sentimentos que me apanharam na curva e me acagaçaram de morte. Apaguei as fotografias, proibi-me (e, com a força das expressões de dor que devia transpirar na altura, a todos quantos adivinharam a estória) de pronunciar o seu nome, de sequer falar dos sítios em que a realidade se tinha tornado um lugar melhor. Queria fingir que as lembranças dos sabores da pele e da língua dele eram de outro, ou dum qualquer. Quanto mais me forçava a ignorar a sua presença, mais a sua ausência ecoava em cada movimento dos ponteiros. Tentei substituir a sua imagem na minha cabeça mas a cada pestanejo ele me surgia de sorriso aberto até ao canto dos olhos; o mesmo sorriso que me virou as tripas e a lógica e o coração do avesso; os mesmos olhos que, cerrados, me fitavam na noite, desde a primeira, em que me soube rendida àqueles contornos de amêndoas tristes, quebrando todos os silêncios. Tentava, com todas as minhas forças, bani-lo de mim. E chorava, no escuro (eu, que nunca chorava!), com a falta dele a meu lado na cama, com o abismo da diferença entre o que era e o que tinha sido. Chorei também acompanhada, azul de vergonha, em frente a todos e sem controlo. Havia sido apanhada em falso, do nada, quando alguém me perguntou (antevendo a resposta por tão bem conhecer os meandros de mim) se sentia saudades dele. Aquelas duas palavras, o nome dele e “saudades”, como duas pequenas gotas que obrigaram os meus mares a transbordar, a derrubar os diques que tanto havia engenhado para não quebrarem.

Foi num desses dias, de pensamentos acorrentados e palavras abafadas, que tudo desabou. Cheguei, à hora habitual, no lugar habitual - uma das poucas rotinas com que vou convivendo pacificamente. Quando me aproximei para sentar, os joelhos, juro, tremeram. Não queria acreditar. Ali, no “meu” canto, alguém escrevera o seu nome, em maiúsculas como que a berrar-me que não podia fingir que não estavam ali. Porquê o seu nome, que foge a sete pés da oblíqua escuridão em que todos os Pedros e Paulos e Josés e Antónios se atropelam aos tropeções?! Aquele nome que, quanto mais virava costas, mais a cidade gritava aos meus olhos, dedos e ouvidos. Estava por toda a parte, a multiplicar-se como quando se compra um carro novo e os seus gémeos repentinamente erguem o pescoço entre as congestionadas multidões. Assim era o nome dele, repetido, esgotado, fantasmagoricamente assolando cada dia e cada noite, cada livro, cada café, por toda a urbe e até naquele chiado ondulante… Que ausência de ordem é esta neste universo, que faz questão de mo impor, quando só lhe quero fugir? Quando, no fundo, só quero aninhar-me nos seus braços e fazê-lo meu. Sentei-me sem saber como não quebrar, hipnotizada na realidade que fugia. Foi nesse momento exacto, em que o seu nome surgiu tatuado no meu seat by the window, que baixei as defesas, abri mão da carapaça e voltei a casa, ao lugar que é só meu. Onde me encontro comigo, e com ele, que faz inevitavelmente parte de mim. Retornei a mim, ciente que estou por minha conta, mas liberta de medos e máscaras, liberta da negação do que foi e que continua a ser. Não foi fácil, não foi uma cedência. Foi antes o culminar duma árdua luta que não queria ganhar. Foi mais do que baixar os braços, foi aceitar uma verdade que queima o peito como ferros em brasa. Foi saber que o íngreme caminho que é o meu (que não escolhi e que não tenho poder para recusar) não tem atalhos e que terei de percorrê-lo descalça. Sob sol, chuva, neve e granizo e sem garantias de algum dia chegar ao cume da gigante montanha.

Tal como aquela tinta azul, de esferográfica que mais parece permanente, que não cede, não desgasta, assim em mim permanece a companhia que deixei de evitar, o sentimento que deixei de negar. Já não fujo ao seu encontro nem ao seu nome. Já não fujo à vontade de cuidar dele e protegê-lo, de encaixar-me no seu corpo doce, de rir-lhe músicas feitas de amor. Enquanto assim for, nada tenho a lamentar. Não recusando que esta verdade venha a mudar, mas também não silenciando a força que tem o seu pulsar.

publicado por Ventania às 07:04
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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Reencontros

Hoje vai ser um dia de reencontros. Curioso como o acaso os reuniu no mesmo canto do continuum espacio-temporal.

Hoje é dia de retornar a um ponto de onde há muito parti, cheia de pontos de interrogação nos bolsos e vontade de entrar por novas portas. Entrei, era um labirinto, mas não desisti, como nunca desisto de nada do que quero. De volta a este ponto, vejo luz difusa, porém, Luz. Não é escuro o meu futuro, porque jamais o permitirei. Incerto, sim, que bom!

Hoje é também dia de voltar ao local onde o meu coração disparou com um sorriso, à velocidade da luz, e comecei a temer uma profecia antiga, aparentemente irracional. Já mencionei que o perdi, ao coração? A quem o possa encontrar por aí, deixai-o estar, que as mazelas fora do peito talvez doam menos, em falsete. Deixei de preferir a dor aos analgésicos (emocionais, entenda-se)… Sabemos todos que as pessoas não servem para penso-rápido e orgulho-me de ter conseguido resistir a essa apelativa tentação. Melhor assim, menos baixas a registar.

Pensando bem, adensa-se a coincidência… Não era por ali que se encontravam aqueles estranhos personagens, entre insinuações e reticências?

Uns passos à frente, reencontro ainda a esquina em que te senti pela última vez. Estava(s) frio. Hoje, um raio de sol mesmo que chova. Daqui, ainda… tudo.

And last, but surely not least, um reencontro há tanto tempo desejado… Com uma pessoa tão, mas tão importante por estes anos fora. Repito-me: a distância só ilude os olhos. Que bom ter-te de volta, ouvir-te e tornar a pegar em tantas cumplicidades como pegas nas minhas mãos, com ânsias de intimidades revisitadas. Como se nunca tivesses partido.

Hoje vai ser um dia de reencontros.

sinto-me:
publicado por Ventania às 06:06
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

um momento

Hoje atrevi-me a revisitar aquele céu dramático, pautado de guarda-rios, onde o paraíso estava tão perto. Ouvi o som das doces águas, da tua voz, o cheiro dos lírios entranhou-se na minha alma. Por um momento, um bater de asas duma efémera, o tempo parou e a realidade ausentou-se de mim. Sopraste-me um beijo… e tornei a ser feliz.

Quem te deu esse direito, de pôr e dispor do brilho dos meus olhos com o abrir dum sorriso? Quem deixou a porta do infinito aberta para que invadisses o meu mundo com um mero vislumbre de ti? Irónico o modo do Universo esbofetear quem se atreve a duvidar, quem insiste em encurtar as rédeas das emoções.

sinto-me: sad to be back
publicado por Ventania às 21:59
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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

...

O meu instinto anda a querer dizer-me qualquer coisa... e eu não estou a gostar do que começo a ouvir. 

publicado por Ventania às 19:41
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Palavreado

Tira-me do sério que as situações sentimentos momentos pensamentos medos receios alegrias simpatias ideias e ideais não sejam transcritos traduzidos repetidos exaustivamente por todas as palavras sinónimos significados possíveis inteligíveis descritíveis.

Dá-me nervoso miudinho tamanho burburinho de cochichos entredentes entrelinhas subentendidas diagnósticos mal percebidos julgamentos extemporâneos gaguejos hesitantes constantes declarações exclamações e mil questões intimidantes.

Resumir reduzir simplificar minimizar é no fundo dar lugar a cada qual interpretar como melhor lhe aprouver. Discordo repreendo rejeito este trejeito que as sentenças do meu modo são insistir e repetir e sublinhar e reforçar a negrito e maiúsculas garrafais cada sílaba marcada desenhada repisada não vá a mensagem sair ao lado deturpada enviesada equivocada mal parada enfeitiçada em orelha desassossegada distraída entupida desatenta iludida que só ouve o que quer.

 

As meias-palavras irritam-me. Mais do que palavra nenhuma. Caro Universo, faz o favor de elaborar, de usar quantas palavras conheças para te traduzires.

 

sinto-me: a deitar palavras pelos olhos
publicado por Ventania às 21:42
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